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Zero Trust e Identidade: por que o controle de acesso se tornou o centro da segurança corporativa
Durante muitos anos, a segurança corporativa foi construída ao redor de uma ideia simples: proteger o perímetro da organização. Usuários dentro da rede eram considerados confiáveis, enquanto conexões vindas de fora eram tratadas como potencialmente perigosas.
Com a adoção de cloud computing, trabalho remoto, dispositivos móveis, SaaS e aplicações distribuídas, esse modelo deixou de ser suficiente. Um usuário pode acessar recursos corporativos de praticamente qualquer lugar, utilizando diferentes dispositivos e aplicações.
É nesse cenário que surge o conceito de Zero Trust, uma abordagem de segurança baseada em uma premissa fundamental: não confiar automaticamente em ninguém ou em nenhum dispositivo, mesmo quando ele está dentro da rede corporativa.
O que é Zero Trust?
Zero Trust pode ser resumido pelo princípio "Never trust, always verify." Ou seja, o fato de um usuário estar conectado à rede corporativa não significa que ele deva receber acesso automaticamente. Cada solicitação de acesso precisa ser avaliada de acordo com contexto, identidade, dispositivo, aplicação, localização, risco e sensibilidade do recurso.
Em vez de perguntar apenas: "O usuário está dentro da rede?", o modelo Zero Trust pergunta: "Quem é esse usuário?", "O dispositivo é confiável?", "Como ele está tentando acessar?", "Qual recurso está sendo acessado?", "Existe algum sinal de risco?", "Esse usuário realmente precisa desse acesso?"
A resposta para essas perguntas determina se o acesso será permitido, bloqueado ou submetido a controles adicionais.
Identidade como novo perímetro
No modelo tradicional, o perímetro de segurança era principalmente a rede. No modelo Zero Trust, o perímetro passa a ser muito mais dinâmico e está diretamente relacionado à identidade. Isso acontece porque a identidade acompanha o usuário independentemente de onde ele esteja.
Um funcionário pode estar trabalhando de casa, em uma filial, em um aeroporto ou utilizando um dispositivo corporativo fora da rede. Ainda assim, sua identidade continua sendo utilizada para determinar quais recursos ele pode acessar. Por isso, uma estratégia de Zero Trust começa necessariamente com uma identidade bem administrada.
O que significa gerenciamento de identidade?
O gerenciamento de identidade e acesso, conhecido como IAM (Identity and Access Management), é o conjunto de processos, tecnologias e políticas utilizados para controlar o ciclo de vida das identidades dentro de uma organização. Isso envolve muito mais do que criar usuários.
O gerenciamento de identidade precisa responder perguntas como: Quem é essa pessoa?, Qual é o vínculo dela com a organização?, Quais recursos ela pode acessar?, Por que ela possui esse acesso?, Quem aprovou esse acesso?, Quando esse acesso deve ser removido?, O que aconteceu durante a utilização dessa identidade?
Dessa forma, IAM envolve desde o provisionamento do usuário até sua desativação e auditoria.
O ciclo de vida da identidade
Uma identidade corporativa possui um ciclo de vida, que, normalmente, ele começa no momento em que uma pessoa entra na organização.
Nesse momento, uma conta pode ser criada no Active Directory ou Microsoft Entra ID, licenças podem ser atribuídas, grupos podem ser associados e dispositivos podem ser registrados. Durante o período em que o funcionário permanece na organização, seus acessos podem mudar conforme seu cargo, departamento ou responsabilidades.
Quando ele muda de função, seus privilégios também precisam ser revisados. Quando deixa a organização, seus acessos precisam ser removidos.
Esse processo é conhecido como: Joiner → Mover → Leaver. Ou, de forma simplificada: Entrada → Mudança → Saída
Uma falha em qualquer uma dessas etapas pode gerar riscos de segurança.
O problema das identidades órfãs
Imagine um funcionário que deixa a empresa, se a conta dele continuar ativa, o usuário poderá continuar possuindo acesso a sistemas corporativos.
Esse é um exemplo clássico de identidade órfã ou acesso órfão. O mesmo problema pode acontecer com contas de serviço, convidados externos, contas administrativas e usuários que mudaram de função.
Por isso, Zero Trust não significa apenas proteger o login. É necessário controlar continuamente o ciclo de vida das identidades.
Microsoft Entra ID nesse cenário
No ecossistema Microsoft, o Microsoft Entra ID funciona como uma das principais plataformas para gerenciamento de identidade e acesso, pois centraliza informações de usuários, grupos, aplicações e dispositivos e permite aplicar políticas de autenticação e autorização.
A partir do Entra ID, uma organização pode implementar mecanismos como MFA, Conditional Access, Authentication Methods, Privileged Identity Management, Access Reviews, Identity Governance e Risk-based access.
Esses componentes trabalham juntos para transformar identidade em uma camada ativa de segurança.
MFA: provar quem você é
O primeiro passo para fortalecer uma identidade é evitar que uma senha comprometida seja suficiente para acessar o ambiente.
O MFA adiciona fatores adicionais de autenticação:
Aplicativo autenticador;
Passkeys;
FIDO2;
Windows Hello for Business;
Biometria;
Outros métodos suportados pela organização.
Entretanto, existe uma evolução importante acontecendo. A segurança moderna está deixando de depender de senhas e avançando para métodos passwordless e resistentes a phishing.
Passkeys e Zero Trust
Passkeys baseadas em FIDO2/WebAuthn utilizam criptografia para autenticar o usuário sem precisar enviar uma senha para o serviço. A chave privada permanece protegida pelo dispositivo ou autenticador, enquanto o serviço mantém a chave pública correspondente.
Isso reduz significativamente o impacto de ataques como phishing e password spraying. Por isso, passkeys e Windows Hello for Business são tecnologias extremamente alinhadas ao modelo Zero Trust.
Conditional Access: transformar identidade em decisão
Se MFA responde: "Como provar que você é você?", o Conditional Access responde: "Em quais condições você poderá acessar este recurso?"
Uma política pode exigir MFA quando determinado usuário acessar uma aplicação.
Outra pode bloquear acessos provenientes de determinadas regiões. Outra pode exigir que o dispositivo esteja em conformidade com o Intune. Também é possível aumentar os requisitos quando o risco de autenticação for elevado.
Dessa forma, o acesso deixa de ser uma decisão binária baseada apenas em usuário e senha.
Identidade + dispositivo
Uma identidade segura não significa necessariamente que o dispositivo seja seguro.
Imagine que um usuário legítimo tenha suas credenciais corretamente configuradas, mas esteja tentando acessar informações corporativas utilizando um computador sem criptografia, sem antivírus ou fora dos padrões de segurança da organização.
Zero Trust permite combinar os dois contextos: o Entra ID determina quem é o usuário e o Intune fornece informações sobre o estado do dispositivo.
O Conditional Access pode então decidir:
- Usuário confiável + dispositivo em conformidade = acesso permitido
- Usuário confiável + dispositivo comprometido = acesso bloqueado ou limitado
Essa integração cria uma camada muito mais forte de proteção.
Privilégio mínimo
Outro princípio fundamental do Zero Trust é o Least Privilege, ou menor privilégio. Um usuário deve possuir somente as permissões necessárias para realizar seu trabalho.
Se um funcionário precisa acessar um sistema específico, não existe justificativa para conceder acesso administrativo completo.
Esse conceito é ainda mais importante para contas privilegiadas. Um administrador de infraestrutura não deveria permanecer com privilégios elevados 24 horas por dia simplesmente porque eventualmente precisa deles.
PIM e acesso Just-in-Time
É justamente nesse cenário que entra o Microsoft Entra Privileged Identity Management (PIM).
Com PIM, uma função privilegiada pode ser atribuída de maneira elegível, mas permanecer desativada. Quando o administrador precisa executar uma atividade administrativa, ele solicita a ativação do privilégio.
A organização pode exigir:
MFA;
Aprovação;
Justificativa;
Tempo limitado;
Revisão posterior.
Depois do período definido, o privilégio é removido automaticamente. Isso reduz consideravelmente a chamada standing privilege, ou seja, a existência permanente de privilégios administrativos.
Zero Trust não significa bloquear tudo
Um erro comum é interpretar Zero Trust como: "Não confie em ninguém e bloqueie tudo."
Zero Trust significa tomar decisões de acesso baseadas em evidências e contexto. Um usuário pode receber acesso rapidamente se estiver utilizando uma identidade válida, um dispositivo seguro, uma autenticação forte e um contexto considerado confiável.
O objetivo não é dificultar o trabalho, é garantir que o acesso concedido seja justificado, seguro e monitorado.
Identity Governance
Quando falamos de gerenciamento de identidade em um nível mais avançado, chegamos ao conceito de Identity Governance.
Governança de identidade significa garantir que os acessos existentes na organização continuem fazendo sentido ao longo do tempo.
Não basta perguntar: "Quem possui acesso?", É necessário perguntar: "Essa pessoa ainda deveria possuir esse acesso?". É nesse ponto que entram recursos como Access Reviews.
Periodicamente, gestores ou responsáveis podem revisar os acessos de usuários, grupos e aplicações e confirmar se eles continuam necessários.
Access Reviews
Imagine um grupo chamado GRP-Finance-Reports. Durante meses, dezenas de usuários podem entrar e sair da organização. Sem revisão, o grupo pode acumular pessoas que já não precisam acessar os relatórios financeiros.
Com Access Reviews, os responsáveis podem revisar periodicamente os membros e remover acessos que não possuem mais justificativa.
Aplicações também possuem identidade
Outro ponto importante é que Zero Trust não se limita a usuários, aplicações também possuem identidades. Uma aplicação registrada no Entra ID pode receber permissões para acessar APIs e recursos corporativos.
Se essas permissões forem excessivas, a aplicação pode representar um risco tão grande quanto uma conta administrativa comprometida.
Por isso, o gerenciamento moderno de identidade precisa incluir usuários, grupos, dispositivos, aplicações, workloads, contas privilegiadas, identidades externas e identidade de workload.
Com a expansão de automações, APIs, Functions, containers e agentes de IA, cresce também a quantidade de identidades que não pertencem diretamente a seres humanos.
Uma Azure Function, por exemplo, pode precisar acessar um Key Vault. Em vez de armazenar uma senha ou secret no código, podemos utilizar uma Managed Identity. A identidade da aplicação passa a ser autenticada diretamente pelo Azure e recebe somente as permissões necessárias.
Monitoramento e resposta
Nenhuma arquitetura Zero Trust está completa sem monitoramento, essas informações podem ser analisadas por plataformas como Microsoft Defender e Microsoft Sentinel.
O objetivo é detectar comportamentos que indiquem comprometimento de identidade.
Zero Trust e SOC
Imagine que um usuário tenha sua conta comprometida. O atacante consegue autenticar e começa a acessar recursos que normalmente não fazem parte do comportamento daquele usuário.
O SOC pode detectar sinais de risco e iniciar ações de contenção. Dependendo da arquitetura, isso pode envolver bloqueio da conta, revogar sessões, exigir nova autenticação, bloquear o dispositivo e investigar as atividades.
Por isso, uma arquitetura moderna de Zero Trust deve conectar Entra ID, Intune, Conditional Access, MFA, passkeys, PIM, Identity Governance, Microsoft Defender e SIEM em uma estratégia única.
O objetivo final não é simplesmente impedir acessos, mas sim garantir que a pessoa certa, utilizando o dispositivo certo, no contexto certo, tenha acesso somente ao recurso certo, pelo tempo necessário e com todas as ações devidamente monitoradas.
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